Publicado em 21 de setembro de 2026
Marcapasso ou desfibrilador: dá para fazer exercício?Depois de colocar um marcapasso, um desfibrilador ou outro dispositivo cardíaco, é comum surgir uma preocupação:“Será que ainda posso fazer exercício?”Na maioria das situações, ter um dispositivo cardíaco não significa abandonar a atividade física. Pessoas com marcapasso, desfibrilador e dispositivos de ressincronização podem participar de programas de reabilitação e treinamento. O cuidado está em outro ponto: o exercício precisa considerar não apenas o coração, mas também o tipo e a programação do aparelho. Por isso, duas pessoas com dispositivos semelhantes podem receber orientações bastante diferentes (Pedretti et al., 2021; Di et al., 2024; Karaoğuz & Şahingeri, 2025). O exercício realmente ajuda?Sim. Os estudos mostram melhora da capacidade física em pessoas que utilizam dispositivos cardíacos.Uma análise de sete estudos randomizados, com 1.461 pessoas com desfibrilador implantável, mostrou que quem participou de programas de reabilitação teve um ganho médio adicional de aproximadamente 2 mL/kg/min na capacidade de utilizar oxigênio durante o exercício, quando comparado aos cuidados habituais. Também houve melhora da qualidade de vida (Călin et al., 2026).Outra revisão reuniu 16 estudos randomizados e 2.053 participantes. Os programas de exercício melhoraram a capacidade física tanto em pessoas com desfibriladores quanto naquelas com dispositivos de ressincronização cardíaca. Os tipos de treinamento, porém, variaram bastante entre os estudos, reforçando que não existe um único programa adequado para todo mundo (Kaddoura et al., 2024).Uma revisão anterior, com 2.547 participantes, chegou a uma conclusão semelhante: a maior parte dos estudos encontrou melhora da capacidade de exercício após o treinamento (Steinhaus et al., 2019).Programas de exercício supervisionado podem melhorar o condicionamento físico e a qualidade de vida de pessoas com marcapasso ou desfibrilador, especialmente quando o treino é adaptado ao tipo de dispositivo e à condição clínica.Marcapasso e desfibrilador não são a mesma coisaO marcapasso ajuda a controlar ou estimular os batimentos cardíacos. Dependendo do motivo pelo qual ele foi implantado e de como está programado, a frequência cardíaca pode responder de maneiras diferentes durante o exercício.Já o desfibrilador implantável, ou CDI, também monitora ritmos cardíacos acelerados e pode realizar tratamentos quando identifica determinadas arritmias.Essa diferença importa na hora de definir a intensidade do exercício.Em algumas pessoas, especialmente naquelas que dependem mais do marcapasso, apresentam dificuldade de aumentar os batimentos ou utilizam medicamentos como betabloqueadores, olhar apenas a frequência cardíaca pode não ser suficiente. Nessas situações, o profissional também pode considerar a percepção de esforço, a carga realizada e informações obtidas durante um teste de exercício (Pedretti et al., 2021; Dhaygude et al., 2026; Ata, 2026). Em outras palavras: aquela fórmula pronta de frequência cardíaca encontrada na internet nem sempre serve para quem utiliza um dispositivo cardíaco.E quem tem desfibrilador precisa de algum cuidado especial?Sim.O desfibrilador é programado para reconhecer determinadas frequências cardíacas como possíveis arritmias. Por isso, a equipe que orienta o exercício precisa conhecer essas informações antes de estabelecer a intensidade do treinamento.Uma revisão descreveu como referência uma frequência máxima sugerida de 10 a 20 batimentos por minuto abaixo do limiar de ativação do desfibrilador (Castro Gómez et al., 2025).Mas isso não deve ser transformado em uma regra para usar sozinho.O valor depende da programação do aparelho, da doença cardíaca e da resposta de cada pessoa ao esforço. Portanto, saber que existe essa margem é útil — tentar calculá-la sem conhecer a programação do dispositivo não é (Castro Gómez et al., 2025; Pedretti et al., 2021; Di et al., 2024). Fazer exercício aumenta o risco de o desfibrilador dar choque?Essa é uma preocupação muito comum. Até agora, os resultados são tranquilizadores. Na revisão de Kaddoura e colaboradores, não houve diferença no número de choques entre quem participou dos programas de exercício e quem recebeu os cuidados habituais.Na revisão de Steinhaus e colaboradores, os choques durante as sessões também foram pouco frequentes: foram registrados seis episódios entre 635 participantes durante as intervenções de exercício.Esses resultados não significam que o risco seja zero. Eles mostram que, nas pessoas e nos programas estudados, participar de exercício estruturado não esteve associado a um aumento demonstrado do número de choques (Steinhaus et al., 2019; Kaddoura et al., 2024; Călin et al., 2026). E a musculação?Também pode fazer parte do programa.Exercícios aeróbicos, de força e de flexibilidade já foram estudados em pessoas com dispositivos cardíacos.Em um estudo com 30 participantes — a maioria com marcapasso — um programa que combinou exercícios aeróbicos, fortalecimento e flexibilidade melhorou a capacidade para o exercício e a força muscular após o treinamento (Squeo et al., 2022).O exercício de força, portanto, não precisa ser excluído apenas porque existe um marcapasso ou desfibrilador. A carga e a progressão precisam ser adequadas à condição de cada pessoa (Squeo et al., 2022; Dhaygude et al., 2026; Zheng et al., 2026). E o braço do lado onde o aparelho foi colocado?Outro medo bastante comum é movimentar o braço depois do implante.Uma revisão reuniu seis estudos que avaliaram exercícios como movimentos de pêndulo, mobilidade, alongamento e fortalecimento. Os exercícios começaram em momentos diferentes, entre o primeiro dia e a segunda semana depois do procedimento.Os estudos encontraram melhor recuperação da função do braço e não detectaram aumento das complicações nos grupos que realizaram os exercícios.Existe, porém, uma ressalva importante: ainda são poucos estudos, e a qualidade da evidência foi considerada baixa a moderada (Surendran et al., 2024). Estudos de Coşgun e Cosgun também encontraram melhora do movimento, da força e da função do ombro com exercícios orientados após o implante (Coşgun & Cosgun, 2022; Coşgun & Cosgun, 2026).O braço do lado do implante não precisa ficar completamente parado. Exercícios orientados de mobilidade e fortalecimento podem fazer parte da recuperação, com progressão adequada para cada fase.Relógios e smartwatches ajudam?Podem ajudar, mas não devem ser a única referência.Dispositivos vestíveis conseguem acompanhar informações como frequência cardíaca e atividade física e vêm sendo estudados como ferramentas de apoio na reabilitação cardiovascular.Em pessoas com dispositivos cardíacos, eles podem contribuir para o acompanhamento da intensidade do exercício, mas a interpretação precisa considerar também o funcionamento do aparelho e a condição cardíaca (Terada et al., 2025). Por isso, o número mostrado pelo relógio não deve substituir uma avaliação adequada.Todo mundo precisa começar em uma clínica?Não necessariamente.O grau de supervisão depende do risco de cada pessoa.Quem apresenta doença cardíaca de maior risco, alterações clínicas recentes ou arritmias mais complexas pode precisar começar com maior monitorização. Conforme a resposta ao exercício se mostra adequada e a condição clínica permanece estável, algumas pessoas podem evoluir para atividades com menos supervisão ou realizadas em casa (Di et al., 2024; Karaoğuz & Şahingeri, 2025; Călin et al., 2026).A presença de um marcapasso ou desfibrilador, sozinha, não define quanto acompanhamento será necessário. Cinco cuidados para levar para casa1. Saiba qual dispositivo você utiliza.Marcapasso, desfibrilador e dispositivos de ressincronização têm funções diferentes.2. Não copie a frequência cardíaca de outra pessoa.A intensidade adequada depende da sua condição cardíaca e da programação do aparelho.3. Não olhe apenas para o relógio.A sensação de esforço, os sintomas e a carga realizada também ajudam a entender como seu corpo está respondendo.4. Proteja a região do aparelho.Atividades com possibilidade de impacto direto sobre o local do dispositivo merecem orientação específica.5. Se ocorrer um choque do desfibrilador ou sintomas importantes durante o exercício, interrompa a atividade.A retomada deve ocorrer depois de avaliação da situação e, quando indicado, do próprio dispositivo (Di et al., 2024; Karaoğuz & Şahingeri, 2025; Strzępek et al., 2026). A mensagem mais importanteTer um marcapasso ou desfibrilador não significa deixar de se movimentar.A ciência mostra que pessoas com esses dispositivos podem melhorar capacidade física, força e qualidade de vida com programas de exercício.O que muda é a maneira de planejar o treinamento.Conhecer o dispositivo, entender como o coração responde ao esforço e ajustar o exercício à condição de cada pessoa permite transformar o movimento em parte da recuperação — e não em algo que precisa ser evitado. Converse com seu fisioterapeuta e com a equipe que acompanha seu dispositivo sobre a melhor maneira de iniciar ou progredir seus exercícios.Siga @revalidatie_londrina e acompanhe o Reva+ para entender melhor como o exercício pode fazer parte do cuidado cardiovascular. fase.📚 Referências Científicas Utilizadas:Ata, B. N. (2026). Letter on “Cardiac Rehabilitation in Patients With Implantable Cardioverter ‐ Defibrillator”. Pacing and Clinical Electrophysiology, 49. https://doi.org/10.1111/pace.70139 [Link do artigo]Călin, L., Andreescu, D. I., Bistriceanu, M., Ursu, C., Anghel, A., Anton, R., Fodor, V. B., Răileanu, M. D., Toma, C., Olteanu, G., Trache, D., Serbanoiu, L., Avram, A., Perone, F., & Busnatu, Ș. (2026). Cardiac Rehabilitation in Patients with Implantable Cardioverter-Defibrillators: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials and TSA. Biomedicines, 14. https://doi.org/10.3390/biomedicines14010207 [Link do artigo]Castro Gómez, C., Quiñonez, M. J. 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