Publicado em 19 de outubro de 2026
Sono, coração e cérebro: vale olhar além das horas dormidasVocê acorda cansado, passa muito tempo desperto durante a noite ou percebe que seus horários de dormir mudam bastante?Para entender como está seu sono, vale observar mais do que o total de horas. A regularidade dos horários, os períodos acordado durante a noite e como você se sente durante o dia também merecem atenção. Esses aspectos ajudam a organizar uma conversa com a equipe de saúde, mas não permitem identificar um problema apenas pela impressão de que você dormiu mal (Chaput et al., 2020; Pase et al., 2023).As pesquisas relacionam diferentes características do sono à saúde cardiovascular e ao desempenho mental. Entretanto, encontrar uma associação não significa demonstrar que o sono, sozinho, causou uma doença. Essa diferença é importante para cuidar da saúde sem transformar cada noite ruim em motivo de medo.O que os estudos mostram?Dormir mais nem sempre significa dormir melhorGrandes pesquisas encontraram associação entre sono prolongado e maior ocorrência de problemas cardiovasculares. Em outro estudo, o hábito de dormir muito pouco de forma persistente também esteve relacionado a maior risco de eventos cardiovasculares e morte (Jike et al., 2018; Kwok et al., 2018; Wang et al., 2020). Esses resultados não são uma recomendação para reduzir o sono nem estabelecem uma quantidade ideal igual para todas as pessoas. As relações observadas também variaram conforme características como idade e sexo. O número de horas precisa ser interpretado no contexto de cada pessoa (Svensson et al., 2021). Horários mais regulares também contamUma revisão encontrou, em geral, resultados de saúde menos favoráveis entre pessoas com horários de sono mais tardios ou mais variáveis. A maioria das pesquisas, porém, observou os hábitos das pessoas, sem testar se mudar esses horários evitaria doenças (Chaput et al., 2020).A orientação prática é procurar alguma consistência nos horários de dormir e acordar. Um consenso de especialistas recomenda essa regularidade, mas não estabelece um horário único que todos devam seguir (Sletten et al., 2023). Pasted text (2)Passar menos tempo acordado durante a noite está relacionado ao desempenho mentalUma pesquisa reuniu quase seis mil adultos de meia-idade e idosos, sem AVC ou demência, de cinco estudos norte-americanos. Pessoas que permaneciam menos tempo acordadas depois de adormecer apresentaram, em média, melhor desempenho em testes que avaliavam diferentes habilidades mentais em conjunto — a chamada cognição global. A apneia obstrutiva do sono esteve associada a resultados menos favoráveis (Pase et al., 2023).Isso não demonstra que eliminar os despertares melhore automaticamente a memória. O estudo identificou uma relação; não testou um tratamento para tornar o sono mais contínuoNão observe apenas quantas horas você dorme. A regularidade dos horários e o tempo que permanece acordado durante a noite também fazem parte da avaliação do sonoAlguns tratamentos para o sono podem ajudar a reduzir a pressãoUma revisão avaliou intervenções como terapia cognitivo-comportamental para insônia, orientações sobre hábitos de sono e estratégias para aumentar sua duração. Nos ensaios randomizados, houve uma redução média adicional de aproximadamente 4,9 mmHg na pressão sistólica — o número maior da medida — em comparação aos grupos de controle (Mostafa et al., 2026).Os resultados variaram bastante entre os estudos. Além disso, a revisão excluiu estudos sobre apneia: esse resultado não deve ser atribuído ao tratamento com CPAP. A melhora da pressão também não demonstra, por si só, que essas intervenções previnam infarto ou AVC. Quando apneia e insônia coexistem, os dois problemas merecem atençãoEm pessoas que tinham apneia e insônia ao mesmo tempo, um ensaio avaliou a terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida como TCC-I, antes do início do CPAP, o aparelho de pressão positiva nas vias aéreas.Em comparação ao cuidado habitual, essa abordagem melhorou os sintomas de insônia e aumentou a aceitação e o tempo de uso do CPAP. O benefício foi observado com esse tratamento específico, e não com qualquer medida para dormir melhor (Sweetman et al., 2019).Outro ensaio, também com pessoas que apresentavam as duas condições, encontrou melhoras mais rápidas no sono e no funcionamento durante o dia relatados pelos participantes quando a TCC-I foi incluída no tratamento (Tu et al., 2022). Isso significa que cuidar do sono previne demência?Não é essa a conclusão que podemos tirar dos estudos apresentados.Apneia e insônia foram associadas a maior ocorrência de demência em estudos que acompanharam pessoas ao longo do tempo. Entretanto, os resultados variam entre pesquisas, faixas etárias e tipos de demência. Essas associações não permitem prever o que acontecerá com uma pessoa nem demonstram, sozinhas, o efeito preventivo de um tratamento (Bubu et al., 2020; Legault et al., 2021; Ungvari et al., 2025; Wang et al., 2025).Há motivos para avaliar e tratar dificuldades de sono, incluindo os benefícios demonstrados sobre sintomas, uso do CPAP e funcionamento diurno. Mas as fontes utilizadas neste boletim não demonstram que essas intervenções evitem infarto, AVC ou demência. Estudos voltados a pessoas que já têm comprometimento cognitivo também apontam limitações importantes nas evidências disponíveis (Blackman et al., 2021). Cuidados para a sua rotinaProcure manter horários semelhantes. Dentro das possibilidades da sua rotina, busque consistência ao dormir e acordar. A regularidade é recomendada, sem a necessidade de transformar o sono em uma cobrança por horários perfeitos (Chaput et al., 2020; Sletten et al., 2023).Leve à consulta um retrato da sua noite e do seu dia. Conte se tem dificuldade para adormecer, quanto tempo costuma ficar acordado durante a noite, como os horários variam e como se sente durante o dia. Essas informações ajudam a apresentar suas dificuldades; não são um diagnóstico por conta própria.Observe o que acontece entre os dias de trabalho e as folgas. Quando o sono é insuficiente nos dias de trabalho, dormir mais nos dias livres pode ser benéfico. O consenso disponível, porém, não define uma quantidade de horas para compensar que sirva para todos (Sletten et al., 2023).Converse sobre dificuldades com o tratamento. Se você tem apneia e também insônia, relate os dois problemas à equipe. Os estudos mostram que incluir um tratamento específico para insônia pode trazer benefícios nessa situação (Sweetman et al., 2019; Tu et al., 2022). Insônia e apneia podem acontecer na mesma pessoa. Relate suas dificuldades à equipe de saúde para que os cuidados considerem os dois problemas.A mensagem mais importanteCuidar do sono não é apenas contar horas nem buscar uma noite perfeita. É observar sua rotina, reconhecer dificuldades e conversar sobre elas para encontrar um cuidado adequado.Este boletim não orienta mudanças em medicamentos ou nos ajustes do CPAP. Dúvidas sobre o tratamento prescrito devem ser discutidas com a equipe responsável.Siga @revalidatie_londrina e acompanhe o Reva+ para mais informações sobre sono, movimento e saúde. 📚 Referências Científicas Utilizadas: Adult Sleep, Cardiovascular, and Brain Health Sleep in adults is linked to cardiovascular risk, daytime cognition, and some long-term brain outcomes, but the strength of evidence differs sharply across duration, regularity, sleep continuity, insomnia, and obstructive sleep apnea. Observational links are broad, acute experimental evidence is strongest for short-term cognitive effects and some physiological cardiovascular effects, and interventio [Link do artigo]Bubu, O., Andrade, A. G., Umasabor-Bubu, O., Hogan, M., Turner, A. D., De Leon, M. D., Ogedegbe, G., Ayappa, I., Girardin, J.-L., Jackson, M., Varga, A., & Osorio, R. (2019). Obstructive sleep apnea, cognition and Alzheimer’s disease: A systematic review integrating three decades of multidisciplinary research. Sleep medicine reviews, 50, 101250 - 101250. https://doi.org/10.1016/j.smrv.2019.101250 [Link do artigo]Chaput, J., Dutil, C., Featherstone, R. B., Ross, R., Giangregorio, L., Saunders, T., Janssen, I., Poitras, V., Kho, M., Ross-White, A., Zankar, S., & Carrier, J. (2020). Sleep timing, sleep consistency, and health in adults: a systematic review.. Applied physiology, nutrition, and metabolism = Physiologie appliquee, nutrition et metabolisme, 45 10 (Suppl. 2), S232-S247. https://doi.org/10.1139/apnm-2020-0032 [Link do artigo]Jike, M., Itani, O., Watanabe, N., Buysse, D. J., & Kaneita, Y. (2017). Long sleep duration and health outcomes: A systematic review, meta-analysis and meta-regression.. Sleep medicine reviews, 39, 25-36. https://doi.org/10.1016/j.smrv.2017.06.011 [Link do artigo]Kwok, C. S., Kontopantelis, E., Kuligowski, G., Gray, M., Muhyaldeen, A., Gale, C., Peat, G., Cleator, J., Chew- Graham, C., Loke, Y., & Mamas, M. (2018). Self ‐ Reported Sleep Duration and Quality and Cardiovascular Disease and Mortality: A Dose ‐ Response Meta ‐ Analysis. Journal of the American Heart Association: Cardiovascular and Cerebrovascular Disease, 7. https://doi.org/10.1161/jaha.118.008552 [Link do artigo]Legault, J., Thompson, C., Martineau-Dussault, M. È., André, C., Baril, A., Villar, G. M., Carrier, J., & Gosselin, N. (2021). Obstructive Sleep Apnea and Cognitive Decline: A Review of Potential Vulnerability and Protective Factors. Brain Sciences, 11. https://doi.org/10.3390/brainsci11060706 [Link do artigo]Mostafa, S. A., Hanif, W., Balanos, G., Nirantharakumar, K., Ellis, J. G., & Tahrani, A. (2026). Effect of behavioural sleep interventions on blood pressure, heart rate, and heart rate variability in adults with poor sleep health: a systematic review, meta-analysis, and meta-regression analysis. 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Sleep health. https://doi.org/10.1016/j.sleh.2023.07.016 [Link do artigo]Svensson, T., Saito, E., Svensson, A., Melander, O., Orho-Melander, M., Mimura, M., Rahman, S., Sawada, N., Koh, W., Shu, X., Tsuji, I., Kanemura, S., Park, S.-K., Nagata, C., Tsugane, S., Cai, H., Yuan, J.-M., Matsuyama, S., Sugawara, Y., . . . Inoue, M. (2021). Association of Sleep Duration With All- and Major-Cause Mortality Among Adults in Japan, China, Singapore, and Korea. JAMA Network Open, 4, e2124387 - e2124387. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2021.22837 [Link do artigo]Sweetman, A., Lack, L., Catcheside, P., Antic, N., Smith, S. S., Chai-Coetzer, C., Douglas, J., O’grady, A., Dunn, N., Robinson, J., Paul, D., Williamson, P., & McEvoy, R. (2019). Cognitive and behavioral therapy for insomnia increases the use of continuous positive airway pressure therapy in obstructive sleep apnea participants with co-morbid insomnia: A randomized clinical trial.. 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